Um estudo apresentado no primeiro congresso académico da Academia Marechal Samora Machel, em Nampula, revelou as fragilidades estruturais que continuam a alimentar a instabilidade em Cabo Delgado. O documento vai além da análise militar e aponta debilidades institucionais, sociais, económicas e geográficas que tornam a província fértil para a expansão do terrorismo.
O estudo sublinha a fragilidade institucional do Estado, visível sobretudo em áreas recônditas onde a presença governamental é quase inexistente. Nessas zonas, comunidades vivem privadas de serviços básicos como saúde, educação, formação profissional e oportunidades de emprego.
Este abandono cria um vazio que enfraquece a ligação entre o Estado e os cidadãos e abre espaço para grupos armados se aproximarem das populações através de promessas, coerção ou até da simples provisão de bens de primeira necessidade. A ausência de instituições retira também ao governo informações locais cruciais para prevenir ataques.
A análise destaca ainda a complexa teia de factores étnicos, culturais e religiosos que, em contextos de vulnerabilidade, são manipulados para fomentar divisões e alimentar o radicalismo. Onde o acesso à educação formal é limitado, narrativas religiosas extremistas encontram terreno fértil para recrutar e enraizar.
A pobreza extrema, o desemprego juvenil e o sentimento de exclusão perante a exploração de recursos naturais — gás, rubis, madeira — intensificam o ressentimento social. Muitos jovens, sem alternativas, acabam recrutados pelas redes insurgentes em troca de pequenas somas de dinheiro ou falsas promessas de mobilidade social.
Geografia como refúgio
Outro elemento crítico é a geografia. As vastas áreas de floresta densa de Cabo Delgado funcionam como refúgio natural, permitindo que os grupos armados se escondam e operem por longos períodos sem serem detectados.
A proximidade com a Tanzânia, marcada por fronteiras porosas e fraca fiscalização, facilita ainda a movimentação de insurgentes, armas e logística, transformando o combate ao terrorismo num desafio transnacional que exige maior coordenação regional.
O estudo conclui que a resposta ao terrorismo não pode restringir-se ao uso da força militar. É necessária uma abordagem multidimensional, combinando operações de defesa com políticas públicas de desenvolvimento.
A presença efectiva do Estado, através da criação de empregos, escolas, hospitais e estradas, aliada a uma gestão inclusiva dos recursos naturais, é apontada como o único caminho para cortar o ciclo de vulnerabilidade que sustenta os grupos insurgentes.
“Enquanto a população local sentir que o Estado está ausente e que não oferece alternativas, os insurgentes terão sempre espaço para crescer”, alerta um dos académicos envolvidos no simpósio.
Apesar dos avanços registados, como a cooperação militar com forças regionais e internacionais, o estudo é categórico: o combate ao terrorismo em Cabo Delgado exige mais do que operações no terreno. Requer visão estratégica, inclusão social e uma presença estatal capaz de resgatar a confiança das comunidades.

