Os mangais da Beira, barreira natural contra ciclones e inundações, estão a ser destruídos pelo lixo, pela pobreza e pela má governação. A degradação da Praia Nova expõe milhares de famílias ao risco de novas tragédias como o Idai e revela o silêncio cúmplice das autoridades diante de um desastre anunciado.
Por Lourenço Soares
A degradação dos mangais atingiu níveis críticos e tornou-se num verdadeiro grito de socorro. Estes ecossistemas, que funcionam como barreiras naturais contra ciclones e inundações, estão a ser destruídos pela pobreza, exploração insustentável, falta de saneamento e ausência de fiscalização governamental. A consequência é dupla: comunidades costeiras cada vez mais vulneráveis e um risco iminente para a sobrevivência de milhares de famílias.
Os especialistas são unânimes: os mangais reduzem em até 24% o impacto de ondas e inundações ao longo da costa de Moçambique. Na Beira, uma cidade construída abaixo do nível do mar, esta proteção é vital. A tragédia do Ciclone Idai, em 2019, mostrou isso de forma brutal. Nas zonas onde os mangais estavam degradados, as marés de tempestade penetraram sem resistência, agravando as inundações e multiplicando a destruição.
A Wildlife Conservation Society alertou: “as áreas onde os mangais foram destruídos sofreram os piores impactos do ciclone”. A restauração, defendem, já não é apenas uma questão de biodiversidade, mas uma urgência para a sobrevivência das populações.
A dura realidade da Praia Nova
O que se vê hoje na Praia Nova é um cenário desolador. O mangal recuou, a densidade de árvores diminuiu e a poluição tomou conta da paisagem. O cheiro nauseabundo da defecação a céu aberto mistura-se com resíduos lançados ao acaso. Moradores relatam que “antigamente havia peixe e caranguejo em abundância; agora, mal conseguimos pescar o suficiente para comer”.
A falta de saneamento básico tornou o mangal num foco de doenças. A contaminação fecal da água e do solo afecta a pesca e aumenta a incidência de cólera e diarreias. A degradação ambiental converte-se, assim, numa grave crise de saúde pública.
Moçambique tem leis que deveriam proteger os mangais, como a Lei do Ambiente (1997) e a Lei de Florestas e Fauna Bravia (1999). Mas na prática, pouco ou nada é cumprido. Um relatório de 2019 sobre governação dos mangais denuncia “fragmentação institucional” e “mandatos sobrepostos” que paralisam a acção governamental. Recomenda ainda a criação de instrumentos jurídicos específicos e clarificação da criminalização do corte de mangais.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) alerta que as maiores taxas de degradação do mangal em Moçambique se concentram justamente em cidades como Maputo, Beira, Quelimane e Pemba, associadas a expansão urbana desordenada e exploração excessiva. A Beira, epicentro da vulnerabilidade climática, continua a perder o pouco escudo natural que lhe resta.
Governo entre discursos e omissões
Recentemente, o Presidente Daniel Chapo, ao abrir a III Conferência sobre Biodiversidade na Beira, apelou a uma “gestão responsável dos recursos marinhos”. Mas as declarações contrastam com o que se vive em bairros como a Praia Nova, onde a degradação prossegue a olhos vistos, sem fiscalização séria nem soluções estruturais.
A restauração dos mangais em Sofala não pode mais ser vista como opção, mas como obrigação nacional. É preciso passar das palavras aos actos: legislar especificamente sobre mangais, reforçar a fiscalização, investir em saneamento e criar alternativas económicas para as comunidades que dependem destes ecossistemas.
Enquanto isso não acontece, a Praia Nova continuará a ser um retrato vivo daquilo que pode acontecer a toda a zona costeira de Moçambique: a destruição lenta e silenciosa de um escudo natural, que quando cair por completo, arrastará consigo milhares de vidas.

