Nas igrejas protestantes: Só os pobres é que têm demônios?

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Tem sido cada vez mais comum, em algumas igrejas protestantes, assistir a cenas que se repetem culto após culto: o pastor começa a orar, levanta a voz, impõe as mãos, e as pessoas caem. Gritam, tremem, choram, são declaradas “libertas”. Estranhamente — ou talvez não — são quase sempre pessoas da classe social mais baixa. Na maioria das vezes, mulheres. A pergunta que fica no ar é desconfortável, mas necessária: será que só os pobres têm demónios?

Se formos pela lógica bíblica, a resposta deveria ser não. A Bíblia ensina que o diabo foi precipitado na terra após se rebelar contra Deus. Se esta, é a mesma terra onde todos vivemos, então todos nós — ricos e pobres, homens e mulheres — estamos sujeitos a tentações, falhas e conflitos espirituais. O mal, segundo a própria fé cristã, não faz distinção de classe social. Ele atinge a humanidade como um todo.

Mas, o que se vê em muitos templos hoje, parece contradizer essa ideia. Nas igrejas onde as manifestações são frequentes, a maioria esmagadora das pessoas que “manifestam demónios” pertence às camadas mais desfavorecidas da sociedade. São pessoas com dificuldades financeiras, problemas familiares, desemprego, baixa escolaridade. São mulheres sobrecarregadas, mães solteiras, vítimas de violência, de abandono ou de exclusão social.

Será que os demônios preferem os pobres?

Isso levanta outra pergunta inevitável: será que os demônios “preferem” os pobres? Ou será que os ricos têm algum tipo de imunidade espiritual? Será que o mal tem medo de contas bancárias recheadas?

A realidade mostra que a dor humana não escolhe classe social. A depressão atinge empresários. A ansiedade consome estudantes universitários de famílias abastadas. A dependência química destrói herdeiros. O adultério, a corrupção, a ganância e o abuso não são exclusividade de quem mora na periferia. Se o pecado e as fraquezas são universais, por que as manifestações públicas parecem ter endereço certo?

Talvez a resposta não esteja no mundo espiritual, mas no mundo social.

Pessoas em situação de vulnerabilidade são mais expostas emocionalmente. Carregam traumas, medos, frustrações e desespero. Muitas vezes, encontram na igreja o único espaço de acolhimento, onde alguém as ouve, as toca, lhes dá atenção. Num momento de oração intensa, com música alta, ambiente carregado de emoção e expectativa coletiva, é natural que haja reações físicas e psicológicas fortes. O corpo reage ao que a mente sente.

Não se trata de negar a fé de ninguém. Trata-se de reconhecer que o ser humano é complexo. Emoção, espiritualidade e contexto social caminham juntos. Uma mulher que enfrenta violência doméstica, fome e abandono pode desabar em lágrimas durante uma oração. Isso é demônio ou é dor acumulada?

São as mesmas pessoas que caem

Outro ponto que chama atenção é a repetição. São as mesmas pessoas que caem. Os mesmos rostos. Se foram libertas, por que manifestam novamente na semana seguinte? Se o mal foi expulso, por que volta sempre ao mesmo corpo e nunca ao empresário sentado nas primeiras filas?

Essa dinâmica também produz um espetáculo. E o espetáculo atrai público. A manifestação visível gera impacto. Quem assiste sente que algo sobrenatural está acontecendo. O culto ganha intensidade. A igreja cresce. Mais pessoas chegam buscando libertação. Nesse contexto, é impossível ignorar a suspeita que muitos começam a ter: será que alguns líderes, consciente ou inconscientemente, acabam usando o sofrimento dos pobres como vitrine espiritual?

É uma acusação grave, mas que precisa ser pensada com responsabilidade. Nem todos os pastores agem de má-fé. Muitos realmente acreditam no que fazem e desejam ajudar. Porém, o sistema religioso também pode se tornar um espaço onde a vulnerabilidade vira palco.

Mulheres são principais vítimas dessas cenas

As mulheres, especialmente, tornam-se protagonistas dessas cenas. Culturalmente, elas sempre tiveram mais liberdade para expressar emoções em público. Choram, gritam, tremem — e isso é mais facilmente interpretado como manifestação espiritual. Já os homens, muitas vezes pressionados por padrões de masculinidade rígidos, reprimem suas emoções. E os ricos, acostumados a preservar imagem e status, dificilmente se expõem dessa forma.

Há ainda outro elemento: poder. Num culto onde o pastor determina quem está com demônio e quem está liberto, existe uma relação de autoridade muito forte. A pessoa que cai está, simbolicamente, reconhecendo a necessidade de intervenção daquele líder. Isso fortalece a posição de quem conduz o ritual.

Mas a fé cristã, na sua essência, fala de dignidade humana. Fala de amor, justiça, cuidado com o próximo. Jesus, segundo os evangelhos, aproximava-se dos pobres não para expô-los, mas para restaurá-los. Nunca transformou a dor alheia em espetáculo.

O que fazemos agora?

É urgente que as igrejas reflitam sobre suas práticas. Se todos estamos sujeitos ao pecado e à tentação, então a libertação não pode ter recorte de classe. Se o mal é universal, a manifestação dele também deveria ser. Quando apenas os mais frágeis “manifestam”, é preciso perguntar se não estamos diante de um fenómeno social disfarçado de espiritual.

Isso não significa negar a existência do mal ou ridicularizar a fé. Significa amadurecer. Significa reconhecer que pobreza gera sofrimento psicológico, e sofrimento pode se expressar de muitas formas. Em vez de apenas expulsar demónios, talvez seja preciso investir mais em apoio emocional, orientação familiar, formação, geração de renda.

A pergunta que dá título a este artigo não é uma acusação, mas um convite à reflexão. Será que só os pobres têm demónios? Ou será que são os pobres que têm menos mecanismos para esconder suas dores?

Talvez os demônios não amem mais os pobres. Talvez a sociedade é que os tenha deixado mais expostos. E enquanto não enfrentarmos as desigualdades, continuaremos a confundir miséria social com batalha espiritual.

A fé pode libertar, sim. Mas ela também precisa libertar-se da tentação de transformar o sofrimento dos mais vulneráveis em palco.

Adriano Fernando Ricardo

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