“Na indústria atual é impossível ignorar a importância da gestão de direitos”, Fernando Perdigão

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Por: Amosse Mucavele

Fernando Perdigão é engenheiro de som, produtor e músico, de ascendência portuguesa, nascido em Cabo Verde e radicado na África do Sul, com mais de 40 anos de experiência nas áreas da música, cinema e broadcast. Entre outras distinções internacionais, é vencedor de dois GRAMMY Awards, e o seu percurso abrange música do mundo contemporânea e tradicional, jazz, gospel, rock, pop e diversos géneros africanos. Com formação nos Abbey Road Studios, em Londres, Fernando construiu uma carreira marcada pela excelência técnica, sensibilidade artística e profundo respeito pela autenticidade cultural.

A sua herança lusófona e raízes africanas moldaram uma visão multicultural que se reflete no seu trabalho a nível internacional. Ao longo das décadas, colaborou com artistas de referência na África Austral e além-fronteiras. Entre os seus projetos destacam-se trabalhos com ícones moçambicanos como Stewart Sukuma, Hortêncio Langa, Mingas e Elvira Viegas, contribuindo para gravações que desempenharam um papel relevante na evolução musical da região.

A nível internacional, Fernando encontra-se atualmente a colaborar com a cantora e compositora norte-americana Kelis, conhecida mundialmente por êxitos como “Milkshake”, “Trick Me” e “Bossy”, e reconhecida pela sua influência inovadora nos universos do R&B;, pop e música eletrónica. Fernando representa a Atomic Studios e a Next Music South Africa. A Atomic Studios opera na Cidade do Cabo e em Joanesburgo, oferecendo serviços de gravação, produção e pós-produção de padrão internacional nas áreas da música, cinema e broadcast. A Next Music South Africa é uma das principais editoras e empresas independentes de entretenimento da região, dedicada ao desenvolvimento artístico, produção, distribuição e promoção musical, ligando África aos mercados globais. Fernando acredita que a grande música transcende fronteiras — e dedica o seu trabalho à sua realização ao mais alto padrão internacional.

  1. A indústria musical africana ainda enfrenta problemas estruturais em termos de captação, mistura e masterização. Na sua opinião, onde estão exactamente os gargalos técnicos que impedem muitos projectos de atingir o padrão internacional? Considera que os estúdios africanos estão verdadeiramente preparados, em termos de infraestrutura e know-how, para competir globalmente?

Não acredito que África enfrente hoje os mesmos obstáculos técnicos que enfrentava em décadas anteriores. A tecnologia evoluiu de tal forma que o acesso a ferramentas de gravação, mistura e masterização de elevada qualidade deixou de ser o principal fator limitador. Com o conhecimento adequado, disciplina e rigor técnico, somos plenamente capazes de produzir trabalhos que competem lado a lado com qualquer produção internacional.

Na minha perspetiva, o maior desafio não reside na infraestrutura, mas sim na direção artística e na identidade. Com demasiada frequência, tentamos emular artistas internacionais já estabelecidos, em vez de desenvolver e afirmar uma sonoridade própria. O sucesso global de artistas como Bruno Mars ou Beyoncé assenta precisamente na sua individualidade — eles não são cópias de ninguém.

A verdadeira oportunidade da música africana está na autenticidade. Quando permanecemos fiéis à nossa identidade cultural e musical, aliando-a a uma execução técnica sólida, criamos obras que não apenas competem a nível internacional — mas que se destacam pela sua singularidade.

  • Sendo vencedor de dois Grammy Awards, que diferenças identifica entre uma produção nomeada a prémios internacionais e a média das produções que escuta no mercado africano?

Sou da opinião de que boa música é simplesmente boa música. Uma canção forte — bem composta, bem interpretada, bem produzida e bem gravada — afirmará sempre o seu mérito próprio, independentemente da geografia.

Temos assistido a um reconhecimento crescente da excelência africana ao mais alto nível global. Artistas como Angélique Kidjo, Burna Boy, Wizkid, Tyla, Ladysmith Black Mambazo, Black Coffee e Wouter Kellerman receberam importantes distinções internacionais, incluindo GRAMMY Awards. Isto demonstra claramente que a música africana não está à margem — é hoje parte central do panorama musical global.

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“Temos tudo o que é necessário — criativa e tecnicamente — para competir ao mais alto nível”.

Os meus próprios GRAMMYs foram atribuídos pelo trabalho realizado com o The Soweto Gospel Choir, reforçando que, quando a música africana é apresentada com autenticidade, profundidade artística e excelência técnica, encontra ressonância em todo o mundo.

Temos tudo o que é necessário — criativa e tecnicamente — para competir ao mais alto nível. O que faz verdadeiramente a diferença é a consistência, a autenticidade e um compromisso intransigente com a excelência.

  • Muitos artistas priorizam estética e imagem em detrimento da qualidade sonora. Acredita que existe um défice de literacia técnica entre músicos e produtores no continente?

Sim, acredito que existe, em certa medida, um défice de literacia técnica — e isso liga-se diretamente à questão da imitação versus identidade. Com demasiada frequência, procuramos seguir tendências internacionais e, nesse processo, acabamos por desvalorizar a nossa própria voz musical. Por vezes, parece existir a perceção de que o nosso som é inferior, quando na realidade não é.

Outro aspeto que observo é a tendência para querer fazer tudo de forma autónoma. Na indústria musical atual, a excelência raramente resulta de uma única pessoa assumir todas as funções. Os projetos mais sólidos são construídos por equipas fortes. Se é artista, a sua responsabilidade é encontrar os colaboradores certos — desde produtores e engenheiros de som até diretores criativos e consultores de imagem — e valorizar a especialização de cada um.

O verdadeiro profissionalismo passa por reconhecer que a especialização eleva a qualidade. É muito raro que alguém consiga dominar todas as áreas ao mais alto nível. O sucesso sustentável nasce da colaboração, da humildade e da capacidade de se rodear das pessoas certas.

  • No trabalho com artistas moçambicanos como Stewart Sukuma, Hortêncio Langa e Mingas, quais foram os maiores desafios ao nível de arranjos, captação de instrumentos tradicionais e preservação da identidade sonora?

Acredito que Stewart Sukuma é um excelente exemplo de identidade artística e originalidade. Embora tenhamos buscado inspiração em diversas influências musicais, fomos intencionais em permanecer fiéis a Moçambique. Houve um cuidado meticuloso com a autenticidade linguística — garantindo a correta pronúncia dos diferentes dialetos — e com a preservação das nuances culturais presentes na música. A incorporação de instrumentos tradicionais regionais como a timbila, o mapiko, o udu e a kayamba foi feita com profundo respeito. Estes instrumentos não foram tratados como elementos decorativos, mas como vozes essenciais dentro dos arranjos.

 No álbum Afrikiti, nos anos 90, por exemplo, conseguimos integrar essas sonoridades tradicionais numa estrutura que poderíamos descrever como pop africano, sem comprometer a sua identidade.

Hortêncio Langa era — e Mingas continua a ser — intérpretes verdadeiramente singulars e extraordinários. No trabalho com ambos, a nossa responsabilidade não era transformar a sua sonoridade, mas valorizá-la. Acredito que conseguimos manter-nos fiéis às canções e ao espírito de Moçambique, ao mesmo tempo que apresentámos a música com um nível de produção que lhe permitiu ultrapassar fronteiras.

  • A música africana está em alta nas plataformas digitais, mas tecnicamente muitas faixas ainda não competem em loudness, dinâmica e espacialidade com produções norte-americanas ou europeias. Falta investimento ou exigência artística?

Mais uma vez, esta questão remete muitas vezes para a tendência de querer assumir todas as etapas do processo de produção de forma autónoma, nem sempre executando cada fase ao mais alto nível. A música merece a oportunidade de brilhar plenamente — e isso exige atenção rigorosa à qualidade da captação, aos arranjos, à mistura e à masterização.

Existem realidades financeiras inegáveis na indústria musical, em qualquer parte do mundo. Produção profissional, engenheiros experientes e ambientes acusticamente tratados implicam investimento. No entanto, a excelência nunca foi barata nem simples de alcançar. Muitos dos artistas hoje reconhecidos a nível global enfrentaram obstáculos significativos no seu percurso.

Do ponto de vista técnico, competir em termos de loudness, controlo dinâmico e profundidade espacial é absolutamente possível. As ferramentas e o conhecimento estão disponíveis. O que é necessário é uma combinação de investimento estratégico, disciplina profissional e exigência artística mais elevada.

Assim, a resposta curta seria: sim — trata-se de uma combinação entre recursos e padrões de qualidade.

  • Na sua colaboração actual com Kelis, que diferenças observa nos processos de pré-produção, direcção vocal e controlo de qualidade quando comparados com práticas mais comuns na música africana?

A minha colaboração atual com a Kelis é um bom exemplo de trabalho estruturado e da importância de cada pessoa assumir a função certa no processo. A composição e o desenvolvimento das bases rítmicas são frequentemente iniciados por beat makers dedicados, que se concentram na construção da base harmónica e rítmica da faixa.

A partir daí, a Kelis e eu levamos essas bases para o estúdio e moldamos o disco. Trabalhamos a interpretação vocal, os arranjos vocais, a estrutura e toda a direção emocional da canção. Existe um diálogo constante entre a Kelis, eu próprio e os beat makers — as ideias circulam de um lado para o outro — e o objetivo é sempre claro: fazer o que é melhor para a música.

A principal diferença que observo está no nível de exigência artística em relação ao produto final. Em alguns contextos, pode haver a tendência de comprometer apenas para “concluir” um projeto. Em produções de nível mais elevado, existe muito menos disposição para aceitar o suficiente. Há uma procura constante por aquele último detalhe, aquele refinamento final que transforma uma boa produção em algo verdadeiramente excecional.

No fim, não se trata apenas de acesso à tecnologia ou de talento. Trata-se do padrão que se define e da disciplina de não lançar um trabalho até que ele atinja realmente esse nível.

  • Enquanto representante da Atomic Studios, que especificações técnicas em termos de cadeia de sinal, acústica de sala e monitorização considera inegociáveis para garantir resultados de topo?

Sinceramente, não existem muitos “innegociáveis” absolutos em termos técnicos. Naturalmente, um bom microfone e um sistema de monitorização fiável e preciso são bases fundamentais. Para além disso, a tecnologia evoluiu de tal forma que alcançar resultados de topo já não depende exclusivamente de grandes consolas ou infraestruturas dispendiosas.

O que realmente faz a diferença é o operador — a sua experiência, sensibilidade musical e domínio das ferramentas que utiliza. Quando um engenheiro ou produtor está totalmente confortável com o equipamento que tem à disposição e compreende profundamente as suas capacidades, podem acontecer verdadeiros momentos de magia.

Muitas vezes desenvolvo arranjos fora do estúdio — em casa, com um simples par de monitores de estante, ou até com auscultadores enquanto viajo de avião ou autocarro. A criatividade não está limitada a uma sala de controlo. O estúdio torna-se essencial na fase de refinamento, precisão e tradução do som, mas a essência de uma grande produção reside na visão musical e no conhecimento técnico.

No fundo, o equipamento é uma ferramenta ao serviço do processo — nunca um substituto da competência.

  • Através da Next Music South Africa, que peso têm hoje os metadados, publishing e gestão de direitos na sustentabilidade financeira de um artista africano? Ainda há negligência nessa área?

A minha formação e experiência sempre estiveram mais centradas na vertente musical e de produção, mas na indústria atual é impossível ignorar a importância dos metadados, do publishing e da gestão de direitos.

Os metadados são, na prática, o ADN digital de uma canção. Determinam a forma como uma faixa é identificada, rastreada e monetizada. Se os créditos estiverem incorretos, se as percentagens não estiverem claras ou se as obras não forem devidamente registadas, os artistas estão simplesmente a deixar rendimentos por reclamar.

Ainda existe alguma negligência nesta área — não necessariamente por descuido, mas muitas vezes por falta de informação. Em 2026, os rendimentos podem advir de múltiplas fontes: streaming, direitos conexos, publishing, sincronizações e direitos de execução pública.

Na África do Sul, por exemplo, entidades como a SAMRO e a SAMPRA asseguram que os artistas recebam quando a sua música é executada publicamente — inclusive ao vivo, seja por si próprios ou por terceiros. No entanto, muitos artistas não se registam corretamente ou não reclamam o que lhes é devido.

Na indústria atual, a excelência criativa e a literacia empresarial devem caminhar lado a lado.

  • Tendo em conta a sua participação no Mozambique Music Meeting, que papel atribui a este tipo de plataformas no fortalecimento da indústria musical moçambicana e africana? Podem efectivamente contribuir para elevar padrões técnicos, fomentar parcerias internacionais e profissionalizar o sector, ou ainda existe um desfasamento entre o discurso, criatividade e a realidade do mercado?

Plataformas como o Mozambique Music Meeting são absolutamente fundamentais — particularmente na África Austral, onde o diálogo estruturado da indústria ainda está em fase de consolidação. De certa forma, o MMM destaca-se como uma das poucas iniciativas na região que está verdadeiramente a criar um espaço sério para intercâmbio profissional, ligação internacional e desenvolvimento sustentável do sector.

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O que torna uma plataforma como esta relevante não são apenas os espetáculos ou os momentos de networking, mas a intenção estratégica por detrás da sua organização — reunir artistas, produtores, editores, decisores e delegados internacionais para discutir padrões, sustentabilidade e posicionamento global.

África não carece de talento. O que muitas vezes falta é estrutura, continuidade e coordenação. O MMM contribui para colmatar essa lacuna ao promover colaboração, partilha de conhecimento e visibilidade além-fronteiras.

Se estas conversas se traduzirem em parcerias concretas, formação contínua e desenvolvimento profissional, então iniciativas como o MMM deixam de ser apenas eventos — tornam-se verdadeiros catalisadores da evolução da indústria musical na região.

Nesse sentido, acredito que o Mozambique Music Meeting desempenha um papel crucial e digno de reconhecimento na construção do futuro do nosso ecossistema musical.

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