Bancos pressionam trabalhadores e aprofundam desigualdades em Nampula

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Os trabalhadores do sector bancário em Nampula estão a enfrentar uma crescente degradação das condições laborais, marcada pela expansão da terceirização, redução de direitos e enfraquecimento da acção sindical. O alerta foi lançado por representantes da classe durante a primeira sessão do conselho provincial do sindicato dos empregados bancários.

O encontro, que reuniu dirigentes e membros da organização, serviu para analisar os principais desafios do sector e delinear estratégias de resposta a um contexto que os sindicalistas classificam como “cada vez mais adverso” para os trabalhadores.

Na ocasião, o secretário provincial do sindicato, João Carlos Samuel, afirmou que o sector vive um momento delicado, influenciado por mudanças estruturais nas instituições financeiras. Segundo explicou, a contratação crescente de trabalhadores subcontratados está a reduzir o espaço dos funcionários efectivos e a comprometer a capacidade de organização sindical.

“Hoje encontramos balcões onde a maioria dos trabalhadores não pertence ao quadro efectivo do banco. São funcionários de empresas subcontratadas, o que limita a sua integração no sindicato”, afirmou.

De acordo com o responsável, os actuais estatutos sindicais não permitem a adesão de trabalhadores terceirizados, criando uma lacuna significativa na protecção laboral dentro do sector.

“Estamos a perder membros não porque não haja trabalhadores, mas porque muitos não se enquadram legalmente para fazer parte do sindicato”, lamentou.

As desigualdades salariais também foram apontadas como um dos principais focos de tensão. Segundo os sindicalistas, trabalhadores que desempenham as mesmas funções recebem remunerações distintas, sendo os terceirizados os mais penalizados.

“É extremamente difícil aceitar que alguém faça o mesmo trabalho e receba menos. Isso afecta a moral e cria um ambiente de desigualdade dentro das equipas”, acrescentou João Carlos Samuel.

Para além dos salários, o acesso a benefícios sociais constitui outro ponto crítico. Enquanto trabalhadores efectivos beneficiam de assistência médica e outros apoios, muitos subcontratados ficam excluídos dessas regalias, aprofundando o sentimento de injustiça no seio das instituições.

Por sua vez, o secretário-geral do sindicato nacional dos trabalhadores bancários, Ramiro Zeca Zimbe, reconheceu a complexidade dos desafios, mas defendeu uma actuação mais estratégica por parte das lideranças sindicais.

Segundo Zimbe, o fortalecimento do sindicato passa necessariamente pelo aumento do número de membros, condição essencial para reforçar o poder negocial junto das entidades patronais.

“Quando a maioria dos trabalhadores está sindicalizada, temos mais força para negociar melhores condições. Caso contrário, ficamos fragilizados”, advertiu.

A terceirização, embora reconhecida como um fenómeno global, foi apontada como estando a ser implementada no sector bancário nacional sem a devida regulação e sensibilidade social.

Outro tema que gerou preocupação foi a segurança no manuseio de valores. Os sindicalistas alertam para os riscos associados à atribuição de funções sensíveis a trabalhadores sem vínculo directo com as instituições.

“Estamos a lidar com dinheiro de clientes. Não podemos ignorar os riscos associados à falta de vínculo institucional”, referiu Zimbe.

Apesar das divergências com as entidades patronais, os representantes sindicais admitem a existência de alguns avanços, como a celebração de acordos colectivos. No entanto, o processo de revisão desses instrumentos continua bloqueado, dificultando a actualização das condições laborais face às novas dinâmicas do sector.

Outro ponto crítico prende-se com o litígio em curso com o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), relacionado com o cálculo das pensões. Os sindicalistas alegam que há indícios de discrepâncias entre as contribuições efectuadas pelos trabalhadores ao longo da vida laboral e os valores pagos na reforma, razão pela qual o caso foi submetido aos tribunais.

Apesar do cenário adverso, o sindicato reafirma o compromisso de continuar a defender os interesses dos trabalhadores, apostando no diálogo, na mobilização e na adaptação das suas estratégias.

Durante o encontro, foi ainda analisado o relatório de actividades referente a 2025 e ao primeiro semestre de 2026, tendo sido destacada a necessidade de aproximar o sindicato das camadas mais jovens.

Segundo os participantes, a nova geração demonstra menor interesse pela sindicalização, privilegiando ganhos imediatos em detrimento de benefícios colectivos a longo prazo — uma tendência que ameaça a sustentabilidade da organização.

“Precisamos reinventar as nossas estratégias de mobilização. Os jovens querem resultados rápidos, e cabe-nos mostrar a importância da união para conquistas duradouras”, concluiu um dos intervenientes. Agostinho Miguel

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