Nampula continua longe de resolver crise de água nas zonas rurais

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

A província de Nampula permanece distante de uma solução para o crónico problema de falta de água, sobretudo nas zonas rurais, apesar dos esforços anunciados pelo Governo. O cenário evidencia fragilidades persistentes na garantia de um direito básico, mais de 50 anos após a independência.

Agostinho Miguel

O reconhecimento partiu da Direcção Provincial das Obras Públicas e Recursos Hídricos, que admite que os níveis de cobertura estão aquém do necessário para responder à crescente procura.

À margem da Consulta Pública do Compacto Nacional de Segurança Hídrica 2026–2036, o director provincial, Faquir Massalo, assumiu que o acesso à água segura continua a ser um desafio crítico, revelando um acumulado de insuficiências e promessas adiadas ao longo de décadas.

Actualmente, apenas cerca de 45% da população — num universo superior a sete milhões de habitantes — tem acesso à água potável. Na prática, isso significa que milhões de pessoas continuam excluídas de um serviço essencial.

“Estamos perante um desafio estrutural no acesso à água potável, que exige investimentos contínuos e respostas mais rápidas às necessidades da população”, afirmou Massalo.

O quadro agrava-se quando se analisa o saneamento, cuja cobertura ronda os 54%, reflectindo fragilidades estruturais que continuam a comprometer a saúde pública e a qualidade de vida, sobretudo nas zonas mais remotas.

Apesar das limitações, o sector aponta avanços registados em 2025, com a construção de cerca de 53 sistemas de abastecimento de água nas zonas rurais. Ainda assim, os números revelam-se insuficientes face à dimensão do défice acumulado.

Nas zonas urbanas, decorrem obras consideradas estratégicas, com destaque para sistemas de abastecimento em Nacala-Porto, Namialo, Nametil e Malema. Os projectos alimentam expectativas, mas também levantam dúvidas quanto à sua capacidade de responder, em tempo útil, à pressão existente.

Em Nacala-Porto, está em curso um projecto de grande escala que liga Nacala Velha à cidade portuária, com conclusão prevista para o final do ano.

As autoridades acreditam que estas infraestruturas poderão melhorar o fornecimento, mas reconhecem que os desafios permanecem elevados, sobretudo nas zonas rurais, onde vive a maioria da população e o acesso à água é limitado — ou, em alguns casos, inexistente.

Estima-se que cerca de cinco milhões de pessoas residam nessas áreas, enfrentando diariamente a escassez e recorrendo a soluções improvisadas para obter água.

Distritos como Angoche e Mogovolas continuam a registar dificuldades persistentes no abastecimento, agravadas por limitações no tratamento e na distribuição, evidenciando que o problema não é apenas de infraestruturas, mas também de gestão e sustentabilidade.

Em Mogovolas, decorre a ampliação de um sistema financiado pelo Banco Mundial, que inclui novas torres de distribuição e aumento da capacidade de armazenamento, numa tentativa de reduzir as falhas históricas e aliviar a pressão sobre os serviços existentes.

O objectivo é aumentar a disponibilidade de água e mitigar riscos associados ao consumo de água imprópria, num contexto em que doenças de origem hídrica, como cólera e diarreias, continuam a afectar ciclicamente a província.

O Governo reconhece que, sem investimentos consistentes e sustentáveis, será difícil inverter o cenário actual — uma constatação que levanta dúvidas sobre a eficácia das políticas públicas ao longo das últimas décadas.

Espera-se que o Compacto Nacional de Segurança Hídrica venha a mobilizar financiamento e acelerar a expansão dos serviços, embora persistam incertezas quanto à capacidade de execução.

Entre as prioridades está o abastecimento de zonas com potencial económico, como áreas turísticas e industriais, incluindo Mossuril e Nacala, numa tentativa de alinhar crescimento económico com acesso a serviços básicos.

O executivo provincial pretende ainda envolver o sector privado, reconhecendo limitações na capacidade de resposta do Estado.

Para 2026, está prevista a construção de pelo menos 26 novos sistemas de abastecimento — uma meta que surge num contexto de necessidades acumuladas e de crescente pressão social por soluções concretas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *