Há instituições que nascem para servir o cidadão. O Instituto Nacional de Transportes Rodoviários (INATRO), em teoria, deveria ser uma dessas: garantir ordem e segurança nas estradas, formar condutores responsáveis, emitir cartas de condução com rigor e eficiência. No entanto, em Nampula, o INATRO transformou-se num cancro institucional que devora tempo, dignidade e futuro de milhares de jovens, sem que ninguém no poder se incomode.
O NGANI tem denunciado este caso repetidamente. Já dedicámos várias edições a mostrar o drama vivido pelos instruendos de escolas de condução, que esperam meses — às vezes anos — para obter uma simples marcação ou emissão da carta de condução.
Jovens que concluíram formação em 2023 continuam sem documento, como se o seu futuro tivesse sido sequestrado. Funcionários denunciam um sistema capturado por interesses particulares. E a cada denúncia, o silêncio cúmplice das autoridades soa mais ensurdecedor. O que acontece em Nampula não é mera “ineficiência administrativa”. É muito pior: trata-se de roubo de oportunidades de vida. Jovens que aguardam pela carta de condução perdem empregos. Perdem rendimento. Perdem dignidade.
Um deles relatou: “Estou há dois anos a tentar tirar a carta. Já perdi várias oportunidades de trabalho em empresas que exigiam carta de condução. Dizem sempre que o sistema falhou.” Quantos mais como ele estão a ser esmagados pelo peso de uma instituição que deveria libertar caminhos, mas só fecha portas?
O INATRO de Nampula converteu-se numa máquina selectiva, onde uns passam à frente, outros ficam na fila do esquecimento. O que deveria ser um processo transparente e justo virou um negócio obscuro, alimentado por favoritismos e redes de conluio entre dirigentes e escolas de condução.
A visita recente do Presidente do Conselho de Administração (PCA) do INATRO, Nelson Mário Monteiro Nunes, era aguardada com expectativa. Acreditava-se que finalmente haveria coragem para cortar a podridão pela raiz. Mas o que vimos foi teatro barato.
Chegado a Nampula, o PCA fugiu dos jornalistas, isolou-se em silêncio e, após algumas palavras vagas, regressou misteriosamente a Maputo antes de enfrentar os problemas. Fugiu como quem foge de um incêndio. Fugiu como quem sabe que não pode ou não quer mexer nos interesses que sustentam a podridão.
Se o próprio PCA, empossado há pouco mais de um ano, se mostra incapaz de enfrentar a crise em Nampula, então quem governa de facto o INATRO? Não são os dirigentes, mas sim os tentáculos invisíveis do poder, os tais “intocáveis” que indicam a dedo delegados e os protegem a qualquer custo.
Mais grave ainda é o silêncio das autoridades. O INATRO em Nampula funciona no mesmo edifício onde está o gabinete do governador da província, Eduardo Mariano Abdula. Ou seja, o escândalo está à porta do poder político provincial, mas é tratado como se fosse um detalhe irrelevante.
O Gabinete de Combate à Corrupção, a Procuradoria, a Assembleia Provincial — todos parecem anestesiados. Como se fosse normal uma instituição pública paralisar a vida de milhares de cidadãos. Como se fosse aceitável que jovens passem dois anos a esperar por uma carta de condução, sem que ninguém seja responsabilizado.
Este silêncio cúmplice é, em si mesmo, uma forma de corrupção. É a aceitação passiva da injustiça. É a cumplicidade institucional que transforma abusos em rotina. O caso do INATRO em Nampula é apenas a ponta do iceberg. É o retrato de um modus operandi que se repete em várias instituições públicas do país: serviços lentos, cidadãos humilhados, denúncias ignoradas, dirigentes intocáveis e o povo a pagar a factura.
A indiferença é a maior arma desse cancro. Porque quando nada muda, instala-se a ideia de que tudo é normal. De que reclamar não adianta. De que o sistema foi feito para punir quem mais precisa dele. Mas não é normal. Não pode ser normal. Um Estado que humilha os seus jovens, que lhes rouba oportunidades e os empurra para a frustração, não pode aspirar ao progresso. Está, pelo contrário, a semear revolta e descrença.
Hoje, o INATRO em Nampula é responsável por uma geração encurralada. Jovens que gastaram os poucos recursos das famílias em escolas de condução veem-se bloqueados por uma burocracia seletiva. Sonhos profissionais são adiados indefinidamente. Famílias perdem rendimento. Empresas que precisam de motoristas perdem eficiência.
E quando o desespero cresce, surgem os atalhos: a corrupção como solução rápida. O suborno como forma de furar o bloqueio. É assim que se perpetua o ciclo: o sistema cria obstáculos e depois vende facilidades.
Este jornal não escreve para pedir favores. Não escrevemos para implorar que o INATRO em Nampula funcione. Escrevemos para denunciar. Para expor. Para gritar contra o silêncio.
Já o fizemos em várias edições e voltaremos a fazê-lo quantas vezes for necessário. Não temos medo. Não somos cúmplices. Não aceitaremos que o colapso de uma instituição pública seja tratado como normalidade.
O que se passa em Nampula é grave demais para ser varrido para debaixo do tapete. É urgente responsabilizar os dirigentes que sequestraram o INATRO. É urgente devolver dignidade aos jovens que esperam por documentos básicos. É urgente enfrentar o cancro que corrói o serviço público.
O INATRO não é apenas uma instituição em crise. É o retrato da falência do Estado quando este deixa de servir os cidadãos. É a prova de que a corrupção e a ineficiência caminham de mãos dadas, punindo os mais pobres e protegendo os mais poderosos.
Nampula merece mais. Os jovens merecem mais. Moçambique merece mais. Se as autoridades não têm coragem de enfrentar este cancro, que o povo saiba ao menos que não está sozinho. Que cada edição do NGANI continuará a expor, denunciar e confrontar este e outros escândalos. Porque o silêncio, esse sim, seria a pior forma de cumplicidade.

