Norte de Moçambique: A pobreza que dói, a desigualdade que mata

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Há um país que aparece nos discursos oficiais, nos relatórios coloridos e nas conferências internacionais. E há outro país que respira poeira, mastiga silêncio e aprende a sobreviver na ausência quase total do Estado. Esse segundo país chama-se Norte de Moçambique.

Enquanto Maputo planeia, o Norte espera. Enquanto o poder discursa sobre crescimento económico, milhões no Norte perguntam quando esse crescimento atravessará o Save e o Lúrio. A verdade crua é esta: as assimetrias regionais em Moçambique não são um acidente histórico. São o resultado acumulado de decisões políticas, prioridades enviesadas e uma agenda de desenvolvimento que, na prática, nunca foi pensada para corrigir desigualdades estruturais profundas.

Os números falam com uma brutalidade que nenhum discurso consegue maquilhar. Segundo dados recentes divulgados em Nampula, cerca de 42% das adolescentes engravidam antes de atingir a maioridade na província. Quarenta e dois por cento. É quase metade de uma geração que vê o futuro interrompido antes de começar. Não se trata apenas de gravidez precoce. Trata-se de abandono escolar, dependência económica, perpetuação da pobreza e vulnerabilidade social. Trata-se de um ciclo que se repete com uma regularidade quase mecânica.

A mesma província regista níveis elevados de trabalho infantil, afectando quase um quarto das crianças e adolescentes. A infância, que deveria ser tempo de escola, brincadeira e descoberta, transforma-se em sobrevivência precoce. O Norte carrega o peso de estatísticas que envergonham qualquer Estado que se pretenda comprometido com o desenvolvimento humano.

Quando se fala de analfabetismo, são também as províncias do Norte que surgem nos lugares mais sombrios das tabelas nacionais. Mulheres rurais, sobretudo, continuam a ser as mais penalizadas. A falta de acesso a educação de qualidade não é apenas um problema social, é uma sentença económica. Um país que mantém uma parte significativa da sua população longe do conhecimento está a sabotar deliberadamente o próprio futuro.

A pobreza multidimensional atinge proporções dramáticas. Relatórios internacionais indicam que a maioria das crianças moçambicanas vive em condições de privação múltipla, e as províncias do Norte figuram consistentemente acima da média nacional. Isso significa crianças sem acesso adequado a nutrição, água potável, saneamento, cuidados de saúde e educação digna. Não é apenas pobreza de renda. É pobreza de oportunidades. Pobreza de dignidade.

E depois há Cabo Delgado. Desde 2017, a guerra devastou comunidades inteiras. Milhares de mortos. Centenas de milhares de deslocados. Famílias arrancadas das suas terras, crianças traumatizadas, escolas destruídas, centros de saúde abandonados. A insurgência não surgiu no vazio. Cresceu num terreno fértil de exclusão, desemprego juvenil, ausência de perspectivas e marginalização económica. A guerra é também um sintoma de falhas estruturais prolongadas.

Enquanto isso, Moçambique descobre gás natural em Palma e anuncia megaprojectos milionários. Descobre recursos minerais. Celebra contratos. Mas pergunta-se: quanto dessa riqueza regressa às comunidades do Norte? Quantas escolas foram construídas com esse dinheiro? Quantos hospitais equipados? Quantas estradas pavimentadas para ligar produtores rurais aos mercados? A resposta honesta é desconfortável.

As duas províncias potencialmente mais ricas do país — Cabo Delgado, com o gás, e Nampula, com a sua força agrícola e comercial, continuam entre as mais pobres. É uma ironia cruel. Ou talvez não seja ironia. Talvez seja simplesmente o retrato de um modelo de governação que extrai recursos, mas falha em redistribuir desenvolvimento.

Quando metade de crianças entre zero e cinco anos, num país, sofrem de desnutrição crónica em níveis alarmantes, não estamos perante um problema técnico. Estamos perante uma falha moral. A desnutrição compromete o desenvolvimento cognitivo, reduz o rendimento escolar futuro e perpetua o ciclo da pobreza. Cada criança desnutrida representa uma oportunidade perdida que o país jamais recuperará plenamente.

Qual tem sido, então, a agenda estruturada e consistente do Governo para reduzir a pobreza no Norte? Onde estão os investimentos maciços e sustentáveis em educação primária de qualidade? Onde está a estratégia robusta de combate à gravidez precoce que vá além de campanhas pontuais? Onde estão os programas de geração de emprego juvenil que absorvam a energia de uma juventude crescente e frustrada?

Há planos quinquenais. Há discursos. Há promessas. Mas no terreno, o que persiste é a sensação de abandono. Não se trata de demonizar o Estado por reflexo automático. Trata-se de exigir responsabilidade. As assimetrias regionais não diminuem por decreto. Exigem políticas públicas desenhadas com base em dados, financiadas adequadamente e executadas com rigor. Exigem combate sério à corrupção que drena recursos que deveriam financiar escolas e hospitais. Exigem descentralização real de poder e orçamento.

Perguntas desconfortáveis precisam de ser feitas. É apenas incapacidade administrativa? É falta de vontade política? Ou existe um padrão histórico de centralização que privilegia algumas regiões em detrimento de outras? O Norte sente, e sente profundamente, que o desenvolvimento prometido chega sempre atrasado, quando chega.

A pobreza no Norte não é apenas estatística. É humilhação diária. É a mãe que percorre quilómetros para registar um filho. É a adolescente que abandona a escola porque engravidou. É o jovem que termina a escola e descobre que não há emprego. É o agricultor que produz, mas não tem estrada para escoar. É a criança que vai para a escola com fome.

Moçambique não pode continuar a ser um país onde o local de nascimento determina quase definitivamente o horizonte de possibilidades. Não pode aceitar que o Norte seja sinónimo automático de pobreza, conflito e exclusão. Até quando? Editorial, NGANI090327

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