Felizes são as pessoas que têm dados completos em seus registos. Do contrário, duvido que o adjetivo “infeliz” seja suficiente para descrever o sentimento de pesar de um indivíduo que tenha em seu bilhete de identidade (BI) ou cédula “pai incógnito”. Olhando pela lógica, nenhum ser humano nasce sem o material genético de um homem.
Mesmo em situações onde a mulher decide ter um filho sozinha, em algum momento a clínica de reprodução há de precisar de um doador para que uma vida seja gerada. Isto dá-nos a entender que, por detrás de um filho, sempre existe um pai (o fornecedor do material genético). Ainda que haja uma adoção da ideia segundo a qual pai é quem cria, mesmo assim, o pai (o dono do material genético) existiu para que uma vida fosse gerada.
Todavia, vemos, sobretudo em alguns documentos de identidade, a ausência do nome do pai. Esta situação levanta uma curiosidade quase cómica. Como é possível que uma criança tenha nascido de um incógnito? Como é possível um ser humano deixar que isto aconteça a uma criança?
Talvez seja pelo total desconhecimento do impacto desta situação na vida da própria criança.
Por esta razão, deixo aos profissionais de saúde (psicólogos e psiquiatras) a tarefa de descrever os danos psicológicos que a criança sofre cada vez que olha o seu documento. Também deixo um convite ao público em geral para aproximar-se dos professores e, assim, poder colher relatos deprimentes vindos de quem convive diariamente com os filhos dos incógnitos. Com certeza, ouvirão histórias sobre como estas crianças se sentem envergonhadas cada vez que há um levantamento de dados na turma. Estas veem-se numa situação em que devem encarar os colegas de turma, bem como o professor, para ter que dizer: “sou filho de pai incógnito”.
Os professores irão fornecer detalhes sobre o momento constrangedor e triste que se segue após a revelação. Se calhar, os colegas de turma poderão também descrever o bullying que começa a partir do momento em que descobrem a existência desta situação incómoda.
Atrevo-me a lançar mais um convite aos interessados para que possam conversar com os filhos dos incógnitos, para que eles deem detalhes sobre como é assumir este lugar na sociedade; falem sobre a sensação de rejeição que os atormenta; descrevam como suas mentes lidam com as milhares de perguntas sobre o pai incógnito:
“Onde está o meu pai? O que aconteceu? Assumindo que meu pai não existe, por que fui registado desta forma? Não havia outra opção? Não houve sequer um voluntário qualquer disposto a dar-me o seu sobrenome? Será que meu pai está vivo ou morto? Será que o meu nascimento foi marcado por uma daquelas situações em que o companheiro da minha mãe, ao duvidar da paternidade, decidiu deixar-nos? O que será que aconteceu para que o meu destino fosse selado como um filho de pai incógnito? A minha família nada podia fazer para salvar-me desta situação? Será que algum dia conhecerei o meu pai? Será que o meu pai sabe da minha existência? Quem pode tirar-me desta situação? Será que existe alguma instituição onde posso dirigir-me para que retirem o “pai incógnito” do meu BI?
Em casos como este, existindo possíveis ‘suspeitos’, existirá alguma lei que os obrigue a passar por um teste de DNA? Após a comprovação de paternidade, mesmo contra sua vontade, existirá alguma instituição que faça com que o seu nome conste no meu BI? Será que não havia modelos alternativos de registo adequados à minha situação familiar, onde outros membros da minha família tenham espaço no meu BI?”
Estas perguntas são daquelas que corroem a alma, acima de tudo, quando não se tem respostas. Por isso mesmo, entendo que ninguém deveria passar por isto. Neste sentido, quero deixar mais um convite a todos para que possamos refletir sobre o tema. Talvez uma pergunta guie a nossa reflexão: o que você acha que devemos fazer para ultrapassar esta situação?
Juleca Paposseco

