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Opinião

Moçambique, o país rico que espera esmolas

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Moçambique cresce. Não muito, mas cresce. Cresce nas estatísticas do FMI, nas tabelas de ajuda externa, nos alertas de economistas estrangeiros e nos boletins das agências internacionais. Cresce na dependência. Cresce no déjà-vu de sempre: o país que tem tudo — praias, rios, florestas, minerais e uma população capaz e criativa — continua sentado à mesa, de braços cruzados, à espera que outros países despejem dinheiro na sua carteira.

O Fundo Monetário Internacional avisou recentemente que, sem a ajuda externa, Moçambique pode enfrentar problemas graves. Traduzindo para o português simples: se ninguém mais quiser emprestar ou doar, ficaremos na fossa. E não é uma ameaça para daqui a cinquenta anos. É agora. Sempre foi agora.

O país tem recursos que dariam para alimentar metade da África, gerar empregos em massa, transformar cidades inteiras, mas o que vemos é uma gestão que se arrasta entre empréstimos, dívidas e juros altos. Até os bancos locais já entraram no bolo, elevando o risco de crises financeiras. É como se Moçambique tivesse uma Ferrari no quintal, mas preferisse empurrá-la a pé, enquanto observa com inveja os vizinhos acelerarem nas suas próprias pistas.

As escolas pedem dinheiro. Os hospitais imploram. As estradas choram buracos que crescem a cada chuva. E o governo? Bem, o governo olha para o horizonte, talvez à espera de um pacote mágico do exterior. O metical fraco é só detalhe, a inflação baixa é só estatística bonita. Na vida real, o preço do arroz, do óleo e do pão continua a castigar quem trabalha de sol a sol, enquanto o Estado se preocupa mais com imagens para relatórios internacionais do que com o bem-estar real da população.

Ruanda e Togo já provaram que é possível crescer sem mendigar ajudas externas. Parcerias com empresas, projectos sociais, gestão inteligente do próprio dinheiro — soluções que funcionam. Mas aqui em Moçambique, “inteligência” parece palavra estrangeira. Em vez disso, continuamos a depender do bom coração de outrem, como se a riqueza natural fosse um pecado, e autonomia financeira, um castigo divino.

Não há novidade nisso. A história mostra décadas de governos que não ousaram desafiar a dependência externa. Desde os primeiros anos de independência, Moçambique sempre olhou para fora para tapar buracos internos. Quando um programa falha, quando uma estrada cai, quando uma escola fecha por falta de fundos, a primeira solução é sempre “vamos buscar ajuda externa”. Nunca se pergunta: será que temos meios para resolver isto sozinhos? Será que a riqueza que temos não é suficiente para alimentar o nosso próprio povo?

E não estamos a falar apenas de recursos naturais. Moçambique possui uma população jovem, criativa e trabalhadora. Tem praias que poderiam gerar turismo internacional massivo. Tem rios capazes de fornecer energia eléctrica para centenas de cidades. Tem 36 milhões de quilómetros em terras aráveis, minerais valiosos e uma costa que poderia ser um polo de comércio marítimo regional. Mas mesmo com tudo isso, o governo insiste em pedir esmolas.

O FMI é claro: se a ajuda internacional diminuir, áreas essenciais como saúde e educação sofrerão primeiro. Imagine só: hospitais fechando, professores sem salários, estradas intransitáveis, enquanto o governo corre para os escritórios de doadores internacionais, de chapéu na mão, pedindo que enviem mais alguns milhões. É o país rico que espera esmolas, o paradoxo africano que ninguém consegue resolver.

Enquanto isso, os juros da dívida devoram o orçamento. O dinheiro que poderia ser usado para construir escolas, hospitais ou melhorar estradas é engolido por bancos e organismos internacionais. E não para por aí: o governo tem recorrido cada vez mais aos bancos locais, elevando ainda mais os riscos de problemas financeiros internos. É como se Moçambique estivesse sempre à beira de uma crise, mas ninguém tivesse coragem de encarar o problema de frente.

E o povo? O povo trabalha. O povo produz. O povo paga impostos, mesmo quando o sistema é confuso e as regras mudam a cada ano. Mas a recompensa é quase invisível. O preço do arroz, do óleo e do pão continua alto. O metical enfraquece. E a esperança de um futuro melhor depende da boa vontade de alguém do outro lado do mundo, que pode decidir, a qualquer momento, fechar a torneira da ajuda externa.

Enquanto países vizinhos como Ruanda e Togo mostram que a alternativa existe — que é possível crescer, investir, criar empregos e melhorar a qualidade de vida sem depender de doações — Moçambique permanece refém de relatórios, alertas e promessas de financiamento externo. É o paradoxo cruel: temos recursos, mas não temos líderes capazes de transformá-los em progresso real.

E não estamos a falar apenas de incompetência administrativa. Falamos de fraqueza política, de uma incapacidade crónica de tomar decisões firmes. Os líderes veem oportunidades, mas têm medo de enfrentar os interesses instalados. Medo de cobrar impostos, medo de cortar privilégios, medo de mudar o status quo. O país rico se transforma, assim, em país impotente.

Enquanto isso, os cidadãos assistem a uma novela absurda: riqueza natural imensa, mas resultados mínimos. O Estado se arrasta. As cidades continuam esburacadas e descontinuadas. As escolas continuam sem livros. Os hospitais continuam sem medicamentos. E os líderes continuam a olhar para os gráficos do FMI, preocupados com juros e ratings internacionais, enquanto a população sente na pele a falta de saneamento, luz, água e oportunidade.

É preciso acordar, senhores frelimistas. É preciso perceber que cada alerta do FMI é um sinal de incompetência: o país tem tudo para ser potência, mas prefere ser espectador. Prefere esperar que outros resolvam os problemas que ele mesmo poderia resolver. Prefere mendigar, enquanto os recursos próprios apodrecem ou ficam inexplorados.

O tempo urge. Cada ano que passa é um ano perdido. Cada milhão de dólares recebido de doadores estrangeiros é um prémio que serve apenas para adiar o inevitável: a necessidade de uma gestão competente, corajosa e transparente. Chega de esmolas. Chega de desculpas. Chega de líderes fracos que usam os recursos do país para tapar buracos de curto prazo, enquanto o futuro se desfaz.

Moçambique poderia alimentar milhões, gerar milhares de empregos, ser um exemplo regional. Poderia transformar a sua riqueza mineral, florestal e humana em progresso real. Mas enquanto os líderes não acordarem, continuaremos a depender de ajuda externa, olhando para os vizinhos e imaginando como seria se a coragem viesse antes da esmola.

E aqui está a ironia cruel: temos tudo para ser potência, mas nos comportamos como mendigos milionários. Esperamos que o mundo nos ensine a gerir o que já é nosso. Que nos empreste o que poderia ser produzido localmente. Que nos alivie da responsabilidade de pensar, planear e agir.

O FMI avisa, mas os líderes fingem não ouvir. Os relatórios estão lá, os dados estão lá, os exemplos de sucesso na região estão claros. Mas em Moçambique, a palavra de ordem ainda é: “esperemos pelo próximo pacote de ajuda”. Enquanto isso, o povo sofre. Enquanto isso, o país não cresce. Enquanto isso, os recursos que poderiam transformar vidas continuam à espera, guardados, inertes, como se temessem serem usados sem autorização.

Chega. O país tem tudo. O povo tem força. Mas os governantes não têm coragem. A situação é absurda, mas é a nossa realidade diária. Moçambique, o país rico que espera esmolas, precisa acordar. Precisa colocar mão na massa. Precisa usar o que tem, cobrar o que é devido, investir no que importa.

Não há tempo a perder. Cada dia que passa é um dia em que a dependência externa cresce, os juros da dívida engolem mais orçamento, e a população continua a esperar milagres que nunca chegam. O país rico que mendiga já deu o seu recado. É hora de agir. É hora de transformar riqueza em progresso. É hora de líderes corajosos.

O futuro não espera. E a nova geração não vai esperar. Moçambique tem tudo para liderar, mas só será uma potência se deixar de lado a fraqueza. Se deixar de lado a espera por esmolas. Se deixar de lado a dependência eterna. A oportunidade está aqui. Quem vai agir?

In Crónicas do Absurdo

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