A riqueza do Norte, a ganância do poder e a juventude abandonada

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Durante mais de uma década, o gás natural descoberto na Bacia do Rovuma foi apresentado como a grande promessa de redenção económica para o Norte de Moçambique e do país em geral. Nos discursos oficiais, nos fóruns internacionais e nas conferências de investidores, repetiu-se a mesma narrativa até a náusea: Cabo Delgado deixaria de ser sinónimo de pobreza e marginalização para se transformar numa nova fronteira de prosperidade. Prometeram empregos, cidades modernas, oportunidades para os jovens e um ciclo de crescimento capaz de mudar o destino de uma região historicamente esquecida.

O gás foi apresentado como a chave que abriria as portas de um futuro diferente. Mas hoje, quando se olha para as ruas de Pemba, para os bairros de Mocímboa da Praia ou para os jovens formados nos institutos técnicos de Nampula, a pergunta que surge é devastadora na sua simplicidade: onde estão os empregos prometidos pelo gás?

A resposta começa a revelar um retrato inquietante do modelo económico que está a ser construído no Norte do país. Um modelo onde as riquezas naturais são gigantescas, mas os benefícios locais são minúsculos. Um modelo onde circulam centenas de milhões de dólares em programas de desenvolvimento, mas onde a juventude continua presa ao desemprego, ao trabalho informal e à frustração.

Entre 2016 e 2026, cerca de 200 milhões de dólares foram anunciados para programas de promoção do emprego juvenil no Norte de Moçambique. Projectos financiados pelo Banco Mundial, pela União Europeia, pelo Banco Africano de Desenvolvimento e por vários parceiros internacionais prometeram preparar os jovens para as oportunidades que surgiriam com os megaprojectos do gás. Cursos de soldadura industrial, electricidade, mecânica e construção civil multiplicaram-se.

Jovens foram encorajados a preparar-se para uma indústria que, segundo lhes disseram, iria transformar completamente a economia da região. Muitos acreditaram. Mas passados anos, a realidade no terreno é brutal: a maioria desses jovens continua sem emprego. A esperança que alimentou uma geração inteira começa lentamente a transformar-se em desilusão. E agora, um novo factor ameaça tornar essa distância entre promessa e realidade ainda mais profunda. Com o fim da época chuvosa, a insurgência voltou a intensificar-se em Cabo Delgado.

Segundo o jornalista e investigador Joseph Hanlon num artigo publicado recentemente na Carta de Moçambique, com o título: “Não há Empregos no Gás do Rovuma”, o centro de liquefação de gás natural na península de Afungi, a sul de Palma, foi transformado numa verdadeira fortaleza.

O complexo industrial passou a ser protegido por forças de segurança altamente militarizadas, incluindo tropas ruandesas. O acesso ao projecto será feito apenas por mar e ar, eliminando praticamente qualquer ligação terrestre com as comunidades locais. Esta decisão, segundo o jornalista, tem implicações económicas profundas. Significa que Palma e Mocímboa da Praia deixarão de servir como bases logísticas para empreiteiros, como inicialmente se previa.

Significa menos oportunidades para empresas locais, menos circulação económica na região e menos empregos indirectos. Em outras palavras, o projecto que deveria transformar a economia local corre o risco de funcionar como um enclave industrial isolado, extraindo riqueza do território sem integrar verdadeiramente as comunidades que vivem à sua volta. Mas há outro elemento revelador nesta história.

Hanlon escreve que as multinacionais ExxonMobil e TotalEnergies deixaram claro que os empreiteiros e subempreiteiros envolvidos nos projectos não podem trabalhar com Pessoas Politicamente Expostas (PEP). No jargão internacional, PEP refere-se a altos funcionários do governo, políticos influentes e seus familiares. Trata-se de uma regra destinada a reduzir riscos de corrupção e conflitos de interesse.

Ainda segundo o jornalista e investigador, esta orientação foi transmitida às empresas que procuram contratos ligados ao projecto de gás em Afungi. A decisão poderá excluir empresas associadas a figuras politicamente expostas que esperavam beneficiar de contratos ligados aos megaprojectos. Entre os exemplos citados está a empresa Tsebo Facilities Management (TFM), que esperava participar em contratos de prestação de serviços.

Segundo a mesma fonte, um dos seus proprietários é Pascoal Mahikete Mocumbi, filho do antigo primeiro-ministro Pascoal Manuel Mocumbi e actualmente director comercial da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos.

A empresa Videre, associada à TFM, é gerida pelos irmãos Mamadou Chivambo Mamadhusen e Dingane Abreu Mamadhusen, filhos da antiga ministra dos Negócios Estrangeiros e do Ambiente, Alcinda Abreu. A decisão das multinacionais revela um problema estrutural mais profundo. Durante anos, consolidou-se em Moçambique um sistema económico onde a proximidade política muitas vezes funcionava como passaporte para oportunidades de negócio.

Mas há aqui um paradoxo curioso. Se os contratos começam a escapar à elite política e também não chegam às comunidades locais, quem está realmente a beneficiar da riqueza do gás?

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Terra rica, povo esquecido: O norte à espera dos benefícios das suas riquezas naturais que nunca chegam

A resposta pode estar num padrão que se repete em muitos países ricos em recursos naturais: crescimento económico sem inclusão social. Um exemplo claro encontra-se no sector mineiro. Na mina de grafite de Balama, em Cabo Delgado, a empresa australiana Syrah Resources assinou um acordo com a canadiana NextSource para exportar grafite para Abu Dhabi. Lá, o mineral será transformado em ânodos para baterias de automóveis eléctricos antes de seguir para o Japão.

O detalhe mais perturbador é que os ânodos não exigem tecnologia particularmente avançada. Poderiam perfeitamente ser fabricados em Cabo Delgado. Se isso acontecesse, poderiam criar empregos industriais, desenvolver competências técnicas e gerar valor acrescentado na própria região. Mas isso não aconteceu.

O grafite sai de Moçambique em estado bruto e o valor industrial é criado noutros países. Mais uma vez, repete-se a velha lógica económica: exportar matérias-primas e importar desenvolvimento. Enquanto isso, nas ruas de Pemba, jovens formados em soldadura, mecânica ou electricidade continuam à procura de trabalho que nunca chega. Eles são a geração que acreditou nas promessas do gás. A pobre geração que escolheu cursos técnicos porque lhes disseram que o futuro estava na indústria energética. @Editorial; JornalNGANI160326

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