Na edição de 2 de Fevereiro do ano corrente, escrevi para o Jornal O Destaque sobre os três compromissos inadiáveis da África face à corrida tecnológica em curso. Defendi, então, que se quiser participar como sujeito histórico, e não apenas como objeto dessa corrida, a África deverá, doravante:
1.º Proteger os cidadãos face aos choques económicos provocados pela automação e pela inteligência artificial;
2.º Mitigar os riscos políticos decorrentes da revolução da IA, sobretudo no que diz respeito à vigilância, à manipulação e à erosão das instituições democráticas;
3.º Assumir a cooperação global como imperativo ético, tendo em vista a preservação da humanidade e da dignidade humana.
Os pressupostos desses compromissos estão à disposição de todos. Basta procurá-los.
Nestas linhas, porém, a reflexão desloca-se para uma questão mais inquietante: que África teremos caso esses compromissos sejam adiados? Em outras palavras, o que será da África se continuar a reagir tardiamente à corrida tecnológica?
Longe de qualquer tom apocalíptico, esta reflexão constitui um apelo à consciência histórica. A África carrega hoje uma responsabilidade que ultrapassa as suas próprias fronteiras, sob pena de continuar reduzida ao papel de fornecedora de urânio, grafite, cobalto, lítio e outros recursos estratégicos, enquanto o Vale do Silício, Nova Deli, Tóquio, Seul e Taipé transformam esses recursos em poder tecnológico, económico e geopolítico.
A seguir, esboço o retrato possível da África que poderá emergir daqui a décadas, caso as cimeiras da União Africana continuem a discutir museus do passado, em vez de pensarem seriamente em museus do futuro.
1. A corrida pelos dados
Como desenvolvi no texto “O Terceiro Olho: o ecrã digital e a sociedade seduzida”, caso os governos africanos não atentem para a centralidade dos dados como novo recurso estratégico, acabarão por se ver numa posição paradoxal: para governar e controlar os seus próprios cidadãos, terão de mendigar dados aos gigantes tecnológicos globais, como a Meta e outras corporações do mesmo porte.
Tal dependência passará, inevitavelmente, pela assinatura de memorandos de entendimento que, sob o pretexto da cooperação tecnológica, poderão comprometer a soberania e a infosfera dos Estados
africanos. Assim, o continente deixaria de ser apenas explorado no subsolo para passar a ser minerado no plano invisível da informação, onde o valor é extraído sem que os cidadãos sequer se deem conta.
2. O advento da classe dos irrelevantes
Como argumentei em “África diante da corrida tecnológica: três compromissos inadiáveis”, a revolução da inteligência artificial produzirá um fenómeno inevitável: novos empregos surgirão, outros desaparecerão, e alguns sequer chegarão a existir em determinados contextos.
Essa transformação exige algo fundamental: a reinvenção contínua da força de trabalho. A prioridade será da mão de obra altamente qualificada, capaz de operar, programar, supervisionar e inovar tecnologicamente. Será essa elite técnica que conduzirá os projectos de exploração e transformação dos recursos estratégicos de que a África dispõe.
Em contrapartida, aqueles que não tiverem acesso à requalificação quer por ausência de políticas públicas, investimento educacional ou visão estratégica, formarão aquilo que poderíamos chamar de classe dos irrelevantes: indivíduos economicamente dispensáveis, socialmente marginalizados e politicamente vulneráveis.
Essa irrelevância não será moral, mas estrutural. Não resultará apenas da incapacidade individual, como de um sistema que falhou em preparar os seus cidadãos para o futuro.
3. Dependência tecnológica e fragilidade política
Ao adiar os seus compromissos, a África corre ainda o risco de aprofundar uma dependência tecnológica crónica. Estados incapazes de desenvolver ou, ao menos, compreender as tecnologias que utilizam tornam-se politicamente frágeis, facilmente manipuláveis e estruturalmente subordinados a interesses alheios.
A inteligência artificial, quando não regulada por princípios éticos e instituições sólidas, pode converter-se num instrumento de controlo político, de manipulação da opinião pública e de erosão das liberdades fundamentais, um risco particularmente grave em contextos como nossos, onde as instituições democráticas anonimamente tendem a autocracias.
Adiar os compromissos tecnológicos não é uma opção neutra. É, na verdade, uma decisão histórica com consequências profundas. A África encontra-se hoje diante de um dilema: ou assume com coragem o seu papel na construção do futuro tecnológico global, ou aceita permanecer na periferia, fornecendo matéria-prima material para o progresso alheio. A questão já não é se a corrida tecnológica avançará. Ela avançará. A verdadeira questão é: a África correrá como sujeito ou continuará a ser arrastada como objeto? Esta questão seria o lema da 39ª cimeira da UA realizada este fim de semana em Adis Abeba.
Por Ramos António Amine, Professor de Filosofia

