Por que não vamos aos “ossos” consultar o porquê da nossa desgraça como no passado fazíamos?

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Todo o mal assim como todo o bem têm uma causa respectiva, e ignorar isso pode significar ignorância ou maldade ou ainda o reconhecimento de se ser parte ou beneficiário desse mal. Os modernos dos tempos de hoje andaram e ainda andam a falar mal dos das gerações dos seus pais e avós e bisavós, dizem que os velhos confiavam e acreditavam na magia, na mentira dos curandeiros ou feiticeiros ou advinhos ou videntes ou oráculos. No entanto, não entendem os modernos de hoje que o contexto era aquele e não havia outro, que as lógicas da vida eram aquelas e não havia outras, e era forçoso ou recomendável ou aconselhável explicar qualquer fenómeno, sobretudo as desgraças e infortúnios, as perdes e insucessos, porque o mal não vem por si só. É no contexto das adversidades, doenças estranhas e de cura difícil ou impossível, fracasso no trabalho, na produção e infertilidade, mortalidade infundade da prole e criação que os antigos se sentiam obrigados a ir consultar aos “ossos”. Curiosa e frequentemente os “ossos” apresentavam as soluções e definiam as receitas ou fórmulas para alcançar a solução. E não é por acaso que até hoje, no fulgoroso luzir da modernidade, muita gente, entre cultos e aqueles outros, continua visitando os  “ossos”, consultando aos “ossos”, pedindo direcção aos “ossos”.

Os que desdenham os “ossos”, vilipendiam-nos, certamente encontraram outras fórumulas para explicarem e resolverem os seus desaires. Os “ossos” do hoje moderno estão em grandes escritórios climatizados, nas cidades, e os que manipulam os “ossos” têm nomes modernos, bonitos, pois, soam assim: psicólogos, psicanalistas, urologistas, cariologistas, neurologistas, oncologistas, estomatologistas, ginecologistas, otorrinolaringologista, anestesiologistas, fisioterapeutas, ortopedistas, etc., etc. Diferente dos manipuladores dos  “ossos” verdadeiros, que ficam arrumados numa mochilinha de pele de um animal qualquer, assassinado injustamente por um apreciador de carne, pois chamam a esse sujeito de curandeiro, feiticeiro, charlatão, mágico, advinho, isto é, uns nomes associados à própria desgraça, ao próprio mal, ao próprio infortúnio.

Mas agora estamos num dilema, é que todos os paradigmas não estão a resolver o problema que vivemos como país. Os curandeiros ou feiticeiros viram o seu compo de actuação diluído, sem expressão nem valor e são rotulados como mafiosos, manipuladores de mentes, burlões, não obstante a avalanche de visitas que recebem à calada, nas cidades e mesmo no campo por todo o tipo de gente, pobres e ricos, poderosos e fracos, sábios e estúpidos, velhos e novos; mas o mesmo acontece com os das soluções modernas, vemos de dia e de noite multidões e multidões procurando soluções nesses sumptuosos edifícios com equipamentos de ponta, não obstante todo o mal persiste diante de tanta sabedoria que custou muito ao país e às pessoas. A ciência moderna quis monopolizar ou hegemonizar tudo, mas está também num empasse, a saúde de todos está deteriorando cada dia devido aos problemas sociais que se estão agigantando, e isto associa-se aos problemas naturais que nunca cessam, secas prolongadas, cheias e inundações severas, ventos e temporais extremos, para além dos conflitos políticos e organizacionais em geral.

Quem, então, resolve isto tudo? Um dos livros da Bíblia Sagrada narra a história de um homem que fora enviado por Deus para ir pregar o arrependimento e salvar um determinado povo (o Povo de Ninive), mas o tipo, medroso de cumprir a missão, meteu-se num outro barco para um destino diferente; estou a falar do Jonas, um dos profetas da sua era. O barco, segundo a narração bíblica, foi sacudido por um terrível temporal e esteve na eminência de naufragar, mas a equipa da tripulação, sábia e inteligente, percebeu que aquilo só podia ter uma causa, porque todo o mal tem uma causa. Pediram que todos ali orassem para os seus Deuses, e depois consultaram aos “ossos” para identificar a causa da tempestade e, logo, o Jonas foi acusado e imediatamente atirado para o mar enfurecido e, logo, o barco se recompôs e viveu-se uma calmia incrível tanto entre os viajantes quanto para as águas do mar.

A história dos homens do passado, de várias gerações e tradições têm sempre uma lição na qual nós, os de hoje com as nossas modernices, devíamo-nos inspirar para nos escapar do mal que sempre nos armadilha. Não são os curandeiros ou feiticeiros os maus ou mafiosos nem são médicos, políticos e cientistas os bons, mas o entendimento da vida e suas circunstâncias. Todos somos finitos, nossa sabedoria não é universal nem absoluta, devíamos isso saber, mas o reconhecimento disso podía-nos ajudar sobremaneira. O capitão do barco pediu a todos para orarem, incluindo o próprio Jonas porque sabia que a oração de cada um tinha o seu valor, e não foi em vão. Entretanto, hoje andamos excluindo pessoas, humilhando pessoas, tirando privilégios a pessoas, chamanos nomes horrendos às pessoas e, mesmo assim, queremos que todo o bem venha até nós – enganamo-nos. Os cientistas de hoje, desta nossa parte de África, e toda a gente fascinanda pela ciência descarrega todo o tipo de vexame contra todos aqueles que vivem de forma diferente, e se esquecem que a natureza do mundo é uma imensa e profunda diversidade, aliás, até o próprio corpo humano é um complexo de diversidade que vive em harmonia.

Moçambique vem desde há décadas, desde que alcançou a independência, vivendo ciclicamente desgraças naturais e sociais, o país cresce mais em desgraças do que em sucessos. Os conflitos armados e políticos acompanham o país ao longo destes cinquenta anos de independência e as calamidades naturais, ciclones, cheias e inundações no campo e nas cidades, as doenças, malária, cólera, HIV/SIDA, câncros, AVCs… tudo isto descarrega por cima de um mesmo povo, o moçambicano. Não obstante, continuamos a achar isto normal, natural; que está a acontecer a vontade de Deus. Será? Por causa de muita ciência incipiente e sabedoria frágil, alicerçadas numa base externa e estranha à nossa realidade, convencémo-nos que isto se deve a causas universias, ditas por outros, por isso acusamos as ditas mudanças climáticas, fenómenos El niño, proibimo-nos de comer o que sempre comemos para, mesmo assim, não termos saúde de qualidade. E por que o capitão do barco (país) não age e busca a sabedoria daquele líder da tripulação do barco, mandar todo o mundo rezar a seu Deus e consultar os “ossos” para descobrir-se a causa de tudo isto; ou, do outro modo, sabe-se quem é o causador da nossa tamanha desgraça ou então a nossa desgraça é uma bonança para alguns; e sendo assim, só o próprio Deus se reserva a resolver a situação, afundando o barco todo apenas por cusa de um Jonas que teimou fugir da sua missão.      

Rosário Guambe, in GULANGUMOSO

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