A Unidade Comunal de Saua-Saua 1, conhecida localmente por Namiepe, no populoso bairro de Namicopo, vive dias de crescente isolamento. A principal via de acesso pela zona do Bispo encontra-se severamente degradada por um processo de erosão que, a cada época chuvosa, avança de forma mais agressiva, colocando em risco infra-estruturas públicas, habitações e a própria vida dos moradores.
A situação não é nova. A erosão, provocada pelo escoamento descontrolado das águas pluviais, é um problema antigo, mas que se agravou significativamente nos últimos anos, transformando a estrada num corredor de perigo e incerteza. Em vários troços, a via encontra-se parcialmente engolida, tornando a circulação difícil e, em alguns pontos, praticamente impossível.
Moradores recordam que, antes do seu assassinato, em 2017, o então presidente do Conselho Municipal de Nampula, Mahamudo Amurane, havia iniciado um projecto de construção de raiz da estrada, numa intervenção que coincidia com a expansão da rede eléctrica na zona. Com a sua morte, o projecto foi abruptamente interrompido.
O seu sucessor, Paulo Vahanle, tentou dar continuidade à obra, mas limitou-se à pavimentação de menos de dois quilómetros, deixando vastos troços sem qualquer protecção contra a erosão.
“Se Amurane não tivesse sido assassinado, hoje teríamos estrada e energia no mesmo ano. Quando o mataram, mataram também a nossa estrada”, lamenta António Matias, morador antigo de Namiepe.
O avanço da erosão já colocou várias casas na iminência de colapso. Mais grave ainda é a ameaça directa a um posto de transformação de energia eléctrica (PT), situado junto a um dos pontos mais críticos da via. Caso ceda, o equipamento poderá ser arrastado pelas águas até ao rio Namicopo, expondo a população a riscos eléctricos fatais.
Segundo os moradores, o perigo é conhecido desde o ano passado, mas nem o Conselho Municipal nem a Electricidade de Moçambique realizaram intervenções estruturais para prevenir uma tragédia. Diante do silêncio das autoridades, a própria comunidade tentou soluções improvisadas, utilizando lixo, capim e outros materiais para conter o avanço da erosão.
“No ano passado estava ainda pior. Fomos nós que tentámos salvar o PT. Agora a erosão recuou um pouco, mas não há garantia nenhuma de que vá aguentar”, contou um residente próximo da infra-estrutura. Namiepe é uma das zonas mais populosas de Namicopo e dispõe de duas vias de ligação ao centro da cidade: uma pela zona do Nasser, mais longa e dispendiosa, e outra pela zona do Bispo, tradicionalmente mais curta e barata. No entanto, com a degradação acentuada desta última, o custo de transporte disparou.
O único troço ainda pavimentado — com cerca de 1,5 quilómetros — liga a Rua Dom Manuel Vieira Pinto ao Posto Administrativo de Namicopo e foi executado durante a governação de Paulo Vahanle.
Os operadores de transporte semi-colectivo (“chapa cem”) aumentaram a tarifa de 10 para 15 meticais. Já os mototaxistas passaram a cobrar entre 40 e 50 meticais por trajecto, contra os anteriores 20 a 30. “Estamos a pagar mais para viver pior”, resume Selemane Victor, morador de Namiepe, que recorda uma promessa feita pelo actual edil durante os seus primeiros comícios em Namicopo. “O presidente prometeu resolver a estrada de Namiepe. Desde então, não vimos nenhuma intervenção.”
A quase intransitabilidade da via criou um fenómeno inédito: portagens improvisadas. Em pontos críticos da estrada, grupos de jovens passaram a cobrar entre 10 e 15 meticais para permitir a passagem de motociclistas, alegando estarem a realizar trabalhos de contenção da erosão. “Só para sair de casa e chegar à Padaria Nampula tenho de reservar pelo menos 30 meticais para pagar essas portagens”, relata Geraldo Calisto, mototaxista residente em Saua-Saua. “Quando alguém quer ir a Namiepe, já nem sei que preço cobrar.”
Apesar das críticas, alguns moradores reconhecem o esforço comunitário, mas condenam a imposição do pagamento como condição única de passagem. “Há exemplos melhores, como na ponte do rio Namicopo, onde quem não tem dinheiro ajuda a trabalhar. Aqui devia ser assim”, defendeu um morador que pediu anonimato.
Município promete intervenção limitada
Confrontado com a situação, o presidente do Conselho Municipal de Nampula, Luís Giquira, reconheceu que o município tem conhecimento do problema, classificado como antigo. Segundo o edil, uma equipa técnica já avaliou o local.
No entanto, devido à continuidade das chuvas, a intervenção imediata será limitada à protecção do posto de transformação. A reabilitação da estrada ficará para depois da época chuvosa. Giquira atribuiu responsabilidades à governação anterior, afirmando que a erosão se desenvolveu sem resposta atempada. “Vamos colocar sacos na zona do PT para evitar uma tragédia. Depois das chuvas, vamos intervir na estrada”, garantiu.
Enquanto isso, Namiepe continua a viver entre o risco, o isolamento e promessas adiadas — à espera de que a estrada que a liga à cidade deixe de ser um símbolo de abandono. Celso Alfredo

