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Sociedade

Benny Clor, o Azagaia de Namicopo, viveu três dias no inferno

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Benny Clor, conhecido no meio musical como Azagaia de Namicopo, viveu um dos episódios mais sombrios da história recente da cultura moçambicana. O rapper, que transformou a sua música em trincheira contra injustiças sociais e corrupção, tornou–se alvo de um crime brutal, numa tentativa descarada de silenciar a sua voz e impor o medo como norma.

Foram três dias de um terror inimaginável, que começaram com um gesto aparentemente banal e terminaram como um grito de resistência que ecoa em todo o país. A tragédia começou na passada segunda-feira, durante uma viagem entre a cidade de Nampula e Na cala-Porto, onde o artista reside e desenvolve o seu trabalho.

Era para ser apenas mais uma deslocação comum, até que um conhecido lhe ofereceu boleia. Benny Clor aceitou sem imaginar que essa decisão marcaria o início do seu pesadelo. A armadilha foi montada com precisão: durante o percurso, na zona de Namialo, ofereceram-lhe um refrigerante adulterado. Bastou um gole para que a escuridão tomasse conta de tudo. “Bebi e senti logo um sabor estranho, depois… nada”, contou o artista, a voz embargada pelo trauma.

Quando recobrou a consciência, já não havia estrada, nem música, nem luz. Apenas o aperto sufocante do porta-malas de um carro em andamento. Os momentos seguintes foram uma descida aos infernos. Ao abrir os olhos, Benny Clor percebeu-se prisioneiro de três homens armados, jovens com semblantes frios e palavras carregadas de ódio.

Levado para um local isolado no distrito de Ribaúe, começou então uma sequência de violências planeadas para esmagar não só o corpo, mas também o espírito. Despiram-no à força, como quem arranca a última camada de dignidade de alguém. Cortaram-lhe o cabelo e a barba brutalmente, rindo enquanto filmavam cada humilhação com um telemóvel. Era um espetáculo mórbido, produzido para oprimir e aterrorizar, não apenas o artista, mas todos aqueles que ousam falar demais.

Durante três dias, Benny Clor foi submetido a torturas físicas e psicológicas que desafiam qualquer descrição. Socos, pontapés, ameaças de morte, insultos que feriam tanto quanto os golpes. No auge da crueldade, os agressores foram claros quanto à razão daquele martírio: “Para de falar dos dirigentes. Este país tem regras”, vocifera ram, cuspindo cada palavra como sentença. A violência tinha uma motivação política, uma intenção inequívoca: calar a voz que incomoda, neutralizar a arte que denuncia, transformar a coragem em medo. As agressões não pararam no espaço físico. Depois de gravarem tudo, os sequestradores invadiram as contas do artista nas redes sociais e publicaram as imagens do terror, expondo-o ao escárnio público. Nas fotografias e vídeos, via-se Benny Clor nu, aba tido, reduzido à condição de objecto. A dor transformada em espectáculo. A humilhação convertida em recado para todos os que ousam desafiar a ordem es tabelecida. Não era apenas um crime, era um manifesto de ódio contra a liberdade de expressão.

O cárcere continuou. Após as primeiras horas de tortura, veio o suplício psicológico: Benny Clor foi jogado outra vez dentro do porta-malas do carro, onde permaneceu por quase dois dias, num espaço apertado e sufocante, enquanto os sequestradores circulavam por estradas desconhecidas. Sem comida, sem água, sem ar. “Não sabia se ia sair vivo, se ia ver a minha filha outra vez”, confidenciou, com os olhos marejados.

A cada curva, imaginava o pior. Cada travagem soava como o anúncio da sua execução. Até que, finalmente, na noite de quarta-feira, foi abandonado à própria sorte numa estrada deserta, em Namigonha. Ferido, trêmulo, mas vivo. Foram populares que lhe deram os primeiros socorros e o levaram até ao posto policial mais próximo, onde formalizou a ocorrência.

Agora, em recuperação, Benny Clor admite os danos psicológicos profundos, mas recusa-se a ceder ao medo. “Não vou parar. Não vou abandonar a luta. A política e o político morrem, mas o povo vive para sempre”, declarou, numa frase que soa como manifesto de resistência e que já circula pelas redes sociais como um grito colectivo contra a opressão. O caso provocou uma onda de indignação nacional. Artistas, jornalistas, activistas e cidadãos comuns reagiram com fúria e revolta.

Organizações de defesa dos direitos humanos exigem uma investigação célere e a punição exemplar dos culpados. Mas até agora, o silêncio das autoridades é ensurdecedor. Nenhuma prisão, nenhum comunica do oficial. A impunidade, mais uma vez, parece rondar a cena do crime, reforçando a sensação de que em Moçambique cantar a verdade pode custar a vida.

Por Victor Xavier

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