Há uma cena em Titanic de 1997, do aclamado director James Cameron, que nunca me sai da cabeça. O navio já está condenado. A água sobe pelos corredores com a frieza inevitável do destino. O pânico instala-se. A banda pára por um instante. Um dos músicos despede-se com dignidade. Poderiam fugir. Poderiam misturar-se à multidão desesperada. Mas Wallace, o líder do grupo, levanta o violino e começa a tocar novamente. Um a um, os outros regressam. Não porque a música fosse salvar o navio, mas porque era a única coisa honrada a fazer enquanto tudo ruía.
Quando li sobre Beto Magonzana a anunciar o fim dos Safari, com o último espectáculo marcado para 31 de Dezembro de 2026, não pensei apenas numa banda que encerra um ciclo. Pensei no convés inclinado do Titanic, na água que avançava silenciosa, naquele momento em que se decide se ainda vale a pena tocar.
Os Safari existem há quase cinquenta anos. São anteriores a muitos dos que hoje opinam sobre música nas redes sociais. Atravessaram governos, desvalorizações, mudanças culturais e transformações tecnológicas. Foram trilha sonora de um país que acreditava que a arte tinha função social. E agora dizem que vão parar. Porque da música não dá para viver. Porque o sistema exclui. Porque cada um canta o que lhe vem à cabeça. Porque já não há censura como antes.
Mais velho Magonzana, será mesmo a ausência de censura o problema? Ou será que o problema é outro, mais profundo, mais estrutural, mais doloroso?
A tentação de atribuir a decadência à liberdade criativa é confortável. Sugere que o erro esteja na falta de controlo, na falta de limites, na falta de filtro. Mas o que corrói Moçambique hoje não é excesso de liberdade artística. É escassez de ética colectiva. É a banalização da mediocridade. É a celebração da pequenez, do improviso irresponsável como se fosse génio espontâneo.
Não é só na música onde cada um faz o que lhe vem à cabeça. É na política onde se governa sem plano. É na administração pública onde se decide sem critério. É na academia onde se produz sem rigor. É na televisão onde se exibe sem pudor. A crise é transversal. A música apenas espelha o país.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, disse o poeta. O problema é que as nossas vontades encolheram. Tornaram-se imediatistas, utilitárias, superficiais. O país vive do agora, da viralidade, da “nhonga”, do atalho, do pequeno ganho rápido. O longo prazo deixou de ser horizonte. A profundidade deixou de ser virtude.
Ninguém mais aprecia um bom livro. As livrarias são espaços vazios. O teatro luta por sobrevivência. A dança tradicional é substituída por coreografias importadas. Os campos de futebol já não vibram como antes, andam às moscas. O médico está exausto e desvalorizado, e protesta em greves sucessivas. O professor sente-se humilhado, abandonado e só é lembrado em tempos de eleições para falsificar resultados. O polícia, que devia garantir ordem, aparece muitas vezes como protagonista do crime. O político entra com promessas e sai com património inexplicável e impune.
É um retrato desconfortável, mas honesto. Os Safari não estão a abandonar apenas um palco. Estão a desistir de um ambiente que já não os reconhece. E talvez tenham razão no cansaço. Viver de arte num país onde a cultura é tratada como adereço não é tarefa para fracos. Exige insistência, como disse Magonzana. Exige quase teimosia.
Mas, reitero mais velho Beto, não é a ausência de censura que empurrou a música para o raso. É a ausência de exigência social. É o público que deixou de ser crítico. É o mercado que privilegia o ruído sobre a substância. É o patrocinador que prefere a polémica à qualidade. É o Estado que celebra a cultura apenas em datas simbólicas.
Ali Faque, outro membro do grupo, lamenta que as músicas já não carreguem cor local. Bom, mais velho Ali, isso acontece talvez porque o próprio país tenha perdido as cores. A identidade dilui-se quando a referência deixa de ser interna e passa a ser importada sem filtro. Copiamos estéticas, repetimos fórmulas, imitamos sotaques, mas esquecemos a raiz.
O problema não está na liberdade de cantar. Está na falta de consciência do que se canta. E isso não é exclusivo da música. Vivemos num país onde os valores são negociáveis. Onde a honestidade é vista como ingenuidade. Onde a esperteza substitui o carácter. Onde o mérito incomoda. Onde o debate cede lugar à ofensa. Onde o espaço público é ocupado por políticos de meia tigela que entram, prometem, acomodam-se e saem sem deixar obra, mas com contas mais robustas.
Ali Faque, um país em queda não desmorona de repente. Vai perdendo pequenos pilares. Primeiro a exigência. Depois a ética. Depois o respeito. Depois a memória. Quando se dá conta, já está inclinado como o Titanic. E nesse convés inclinado estão vocês, os Safari. Frustrados, cansados, talvez desiludidos. Olham em volta e perguntam: vale a pena continuar? Talvez a pergunta devesse ser outra: quem continuará a tocar se vocês saírem?
Bom, como em Titanic, eu gostaria que vocês também voltassem e continuassem a tocar. Acho que quando uma sociedade perde os seus músicos, os seus escritores, os seus actores, os seus pensadores, perde mais do que entretenimento. Perde espelho. Perde crítica. Perde terapia colectiva. Perde memória. A música é, em muitos momentos, o último refúgio de dignidade. Quando a política falha, quando a justiça hesita, quando as instituições se fragilizam, a arte continua a oferecer sentido. Não resolve o colapso, mas impede o silêncio absoluto. @Félix Filipe

