A anunciada retoma das auscultações públicas no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo (DNI) está a gerar inquietação entre observadores e actores políticos, devido a aparentes incoerências entre o calendário oficial do processo e as recentes declarações da Comissão Organizadora do evento.
A 09 de Fevereiro de 2026, o presidente da COTE anunciou que, a partir de Março próximo, terá início a segunda etapa de auscultação, abrangendo a diáspora e as zonas rurais do país. No entanto, a metodologia oficial do DNI, disponível no portal do processo, indica que a fase de Auscultação Pública decorreu de forma única entre Setembro e Novembro de 2025.
De acordo com o documento metodológico, a segunda etapa do Diálogo, com vigência entre Dezembro de 2025 e Março de 2026, está reservada exclusivamente à elaboração de propostas, com base na sistematização dos contributos recolhidos na primeira fase de auscultação e na análise técnica conduzida pelos grupos de trabalho temáticos.
Apesar disso, e sem que tenha sido anunciada qualquer revisão formal da metodologia ou justificação pública para a alteração do calendário, a Comissão Organizadora parece ter optado por retomar actividades de auscultação, incluindo deslocações à diáspora e a várias províncias, com particular incidência nas zonas rurais. Estas mesmas áreas já haviam sido abrangidas pelas auscultações realizadas ao longo de 2025.
A aparente inversão das etapas previstas está a levantar sérias preocupações quanto à condução do processo, alimentando receios de que o Diálogo Nacional Inclusivo esteja a privilegiar deslocações e agendas externas em detrimento do trabalho técnico de sistematização, análise e produção de propostas concretas.
Especialistas alertam que, sem clareza sobre as razões desta mudança e sem transparência na gestão do processo, o DNI corre o risco de perder credibilidade pública e ser percebido mais como um exercício de ocupação de agenda e imagem institucional do que como um mecanismo sério de construção de consensos para reformas estruturais, incluindo as áreas eleitoral, de segurança, reconciliação nacional, descentralização e revisão constitucional.
Até ao momento, a COTE não esclareceu oficialmente as razões da retoma das auscultações nem se a metodologia do processo foi objecto de revisão formal. Redacção

